Biodiversidade e pioneirismo na Floresta da USP Ribeirão Preto

A Floresta da USP em Ribeirão Preto é um projeto pioneiro de reflorestamento, cuja implantação alia conceitos de sucessão ecológica, plantio matematicamente planejado e a formação de um Banco Genético que representa uma fonte de sementes de alta qualidade genética para a propagação para outras áreas degradadas da região.

Elenice Mouro Varanda

Foto: Elenice Mouro Varanda

Em 2008, o projeto está completando 10 anos e comemora os avanços obtidos, com destaque para a concretização do CEEFLORUSP, o Centro de Estudos e Extensão da Floresta da USP.

Nesses 10 anos, a Floresta já foi tema de mais de 30 trabalhos científicos, entre trabalhos de conclusão de cursos bacharelado, mestrado, doutorado, pós-doutorado e projetos de jovem pesquisador, além de 28 trabalhos apresentados em eventos diversos e vários artigos científicos publicados. Estima-se que, de 2001 até 2007, a Floresta já tenha recebido mais de 5000 visitantes, atraindo os mais diversos públicos. Contribuiu para um aumento em 20% da cobertura vegetal da área urbana do município de Ribeirão Preto e para o retorno da fauna nativa. Também é notável o aumento da vazão das minas existentes no campus e do surgimento de uma nova nascente d´água. E quem caminha hoje por suas trilhas já pode identificar espécies nativas bastante populares como ipê branco, ipê amarelo, jequitibá-rosa, quaresmeira, paineira, jacarandá, jenipapo e embaúba, dentre outras, muitas delas já produzindo flores e frutos.

Localizada na região noroeste do campus, atrás do Departamento de Biologia e das Sessões de Parques e Jardins e de Transporte – tendo como ponto de referência o acesso pela Avenida do Café-, a Floresta estende-se até a próximo às dependências do Hospital das Clínicas e faz divisa com o vizinho Jardim Paiva, ocupando uma área de 75 hectares.

Implantada entre os anos de 1998 e 2005, a Floresta constitui uma iniciativa para a mobilização de esforços coletivos a fim de resgatar e preservar o patrimônio genético biodiverso do interior do estado de São Paulo, deteriorado pela extensa atividade agrícola desenvolvida há mais de um século na região.

Elenice Mouro Varanda

Imagem mostrando a Floresta delimitada por monocultura da cana-de-açúcar. Foto: Elenice Mouro Varanda

A idealização desse trabalho teve início em 1986 quando, vencido o contrato de arrendamento para fazendas canavieiras da área denominada agrícola, uma comissão multidisciplinar formada na Pcarp – a Comissão de Reocupação dos Espaços do Campus- decidiu destiná-la a uma finalidade mais nobre: a reconstituição da floresta que ocupava originalmente a região antes do advento do café. Diante da oportunidade, a Comissão procurou o professor Paulo Yoshio Kageyama, especialista em reflorestamento do Departamento de Ciências Florestais da Esalq, Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, em Piracicaba, para a implementação de um projeto de ocupação da área com o plantio de espécies nativas. Como o projeto não foi iniciado naquela ocasião, foi sendo modificado no decorrer de 11 anos, incorporando as idéias do professor Kageyama que propôs a implantação de uma metodologia inovadora. “Sugeri que poderiam aproveitar a oportunidade fazendo uma experimentação avançada na pesquisa com espécies nativas”, lembra o pesquisador.

O modelo indicado por Kageyama se resumia no plantio de mudas de espécies nativas, advindas de árvores-mãe diversas, dispostas aleatoriamente pelo campo de forma que os indivíduos geneticamente similares ficassem na maior distância possível uns dos outros. Essa área restaurada formaria, assim, um Banco Genético in vivo, representando uma fonte de sementes de origem e diversidade genética conhecidas. A proposta mostrava-se pioneira em todo o país, comenta Kageyama, uma vez que não seguia os modelos até então usados para a recuperação de áreas degradadas. Os trabalhos de reconstituição florestal com espécies nativas empregados anteriormente se valiam da divisão da área a ser reflorestada em pequenos lotes, denominados parcelas, nos quais mudas de diferentes espécies eram plantadas sem a preocupação com a origem das sementes e a posição das mudas, de forma que plantas geneticamente semelhantes acabavam ficando próximas umas das outras. Sabe-se que muitos casos de reflorestamentos que não obtiveram sucesso tiveram como causa principal a homogeneidade das mudas e a proximidade de árvores irmãs. O baixo índice de diversidade genética torna a floresta propícia a maiores oscilações e eventuais acidentes ambientais – de responsabilidade humana ou não.

Em 1997 foi criada a Comissão de Reflorestamento que retomou e reformulou o projeto original que foi implantado em duas etapas. A primeira delas, iniciada em 1998, abrangeu uma área de 30 mil metros quadrados em que foram plantadas 116 mil árvores de 70 espécies nativas das bacias do Rio Pardo e do Rio Mogi-Guaçú, e é denominada de área de Recomposição. Em uma segunda etapa, cuja implantação se estendeu de 2000 a 2004, fundou-se o chamado banco de germoplasma, ou Banco Genético, que ocupa os outros 45 hectares da Floresta. Nessa área, mais 90 mil mudas de 45 diferentes espécies foram plantadas, provenientes de mais de 3300 árvores-mãe (25 para cada espécie em 3 repetições), cujas sementes foram coletadas em mais de 400 fragmentos remanescentes de mata nativa das referidas bacias. Quanto ao plantio, a equipe montada para o reflorestamento adotou a metodologia sucessional, ou seja, as mudas foram distribuídas nos lotes de forma a respeitar o estádio sucessional das plantas, que podem ser classificadas em pioneiras, secundárias iniciais, secundárias tardias e climácicas. Esse estádio é definido pela ordem em que as diferentes espécies crescem na recomposição natural de uma floresta, de forma que as plantas classificadas como pioneiras e secundárias iniciais são as primeiras a se desenvolver. Adaptadas ao sol, essas plantas têm um rápido crescimento em altura, logo fazendo sombra no campo e propiciando o crescimento das secundárias, mais sensíveis ao sol. Estabilizando-se o ambiente, as espécies secundárias tardias e climácicas encontram as condições para o seu crescimento. Para a distribuição das mudas em campo foram desenvolvidos modelos matemáticos por professores da USP, Felipe Miguel Pait da Escola Politécnica e Alexandre Souto Martinez da FFCLRP.

Elenice Mouro Varanda

Parte mais antiga do reflorestamento. Crescimento de climácicas e decomposição de folhas no solo, estabelecendo o equilíbrio ecológico. Foto: Elenice Mouro Varanda

Apresentada a relevância desta iniciativa, deve-se ressaltar a característica coletiva do projeto que contou com grande envolvimento de funcionários da Pcarp, de docentes, funcionários e alunos do Departamento de Biologia da FFCLRP e de instituições de fora da Universidade. Assim, vários foram os apoios que a Comissão de Reflorestamento recebeu para a sua bem-sucedida implantação que se iniciou durante a segunda gestão do então prefeito do campus Moacyr Mestriner. Na primeira fase – a de Recomposição – contou com o apoio da Cepalv – Votorantin Papel e Celulose, da International Paper, antiga Champion para a doação das mudas que complementaram as existentes no Viveiro do campus. A segunda etapa – a do Banco Genético – contou com o apoio da Reitoria da USP e da prefeitura do campus, para a reforma do viveiro de mudas e equipamento do projeto com a aquisição de um caminhão-pipa e um trator, sem contar os esforços pessoais do funcionário Antonio Justino da Silva, cuja participação ativa na coleta de grande parte das sementes nos fragmentos nativos é lembrada pela equipe com mérito. As parcerias para apoio técnico com a Fundação Florestal -Fundação Para a Conservação e a Produção Florestal do Estado de São Paulo/ SEMA-, com a Diretoria de Gestão Ambiental da Prefeitura de Ribeirão Preto e com a organização não governamental Associação de Reposição Florestal Pardo Grande – Verde Tambaú, responsável pela produção de grande parte das mudas, tiveram peso considerável para a implantação do Banco Genético, assim como as parcerias com proprietários rurais e o MST (Movimento dos Trabalhadores sem Terra) que forneceram mão-de-obra para o plantio e manejo da Floresta em troca de mudas excedentes. “Pelo ineditismo do projeto, muitas dificuldades surgiram, especialmente por falta de dados na literatura sobre germinação das sementes e condições de desenvolvimento das mudas das espécies utilizadas. Foi uma fase bastante interessante, desafiadora e de aprendizagem para todos” conclui a professora Varanda.

“É um modelo excepcional que todos gostariam de ver. E ela [a Comissão] conseguiu”, comemora Kageyama. Complementando as conquistas desse trabalho inovador, foi criado recentemente, de acordo com o previsto no projeto original, o CEEFLORUSP – Centro de Estudos e Extensão da Floresta da USP- coordenado por Varanda e composto por um grupo multidisciplinar que desenvolve subprojetos de pesquisa, de educação ambiental (sob a supervisão do professor Marcelo Tadeu Motokane, do Departamento de Psicologia e Educação), o Restaurar (coordenado pela técnica da Fundação Florestal, Cleide de Oliveira) que cuida do manejo da Floresta e de projetos de RAD (Recuperação de Áreas Degradadas) na região. Entre os objetivos do Centro, dois devem ser destacados. O primeiro é o de estimular projetos realizados com parcerias para a recuperação de áreas degradadas em propriedades rurais que têm interesse na criação de RPPNs, recuperação de APPs e no conhecimento da flora e fauna de remanescentes florestais. O segundo é o de complementar a formação dos estudantes de Biologia com várias atividades para a sua capacitação (seminários, palestras, cursos) e com a participação como bolsistas em projetos dentro e fora do campus, que permitem prepará-los para um mercado de trabalho em plena expansão, formação ainda deficiente na grande maioria dos cursos universitários. O grupo trabalha agora para expandir projetos com desenho semelhante ao da Floresta da USP-RP para áreas degradadas e no fornecimento de mudas para a implantação de pomares genéticos na região.

Sibila Carvalho
Colaboração: Elenice Mouro Varanda

Sibila Carvalho é aluna de especialização em jornalismo científico pelo Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo Científico (Labjor), Unicamp

Elenice Mouro Varanda é professora associada do Departamento de Biologia da FFLCRP e coordenadora do CEEFLORUSP

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