As alterações ambientais e a biodiversidade: conservando o meio ambiente

“A definição de insanidade é continuar fazendo as coisas sempre da mesma forma e esperar por resultados diferentes!”
Albert Einstein

O termo biodiversidade ou diversidade biológica significa variabilidade de organismos vivos de todas as origens, compreendendo os ecossistemas terrestres, marinhos, outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte, compreendendo ainda a diversidade dentro de espécies, entre espécies e de ecossistemas.

A biodiversidade do planeta Terra, tão grande e exuberante, engloba uma tênue rede de microorganismos, plantas e animais, vertebrados e invertebrados, muito frágeis e susceptíveis a mudanças no meio ambiente, vivendo numa relação de interdependência e ainda condicionados aos fatores abióticos do meio em que vivem. Dentro desse contexto, não há ressalvas para a espécie humana, que como outras se relaciona intrinsecamente com inúmeras outras espécies. O homem faz parte da natureza, interage com ela, interfere e sofre interferências dela.

A destruição da camada de ozônio, chuva ácida, erosão, poluição do ar, do solo e da água, combinados com a pressão do crescimento populacional nos países em desenvolvimento e o consumo desenfreado nos países desenvolvidos apresentam um cenário sombrio que ameaça atualmente a vida no planeta. As mudanças induzidas pelo homem ao meio ambiente, direta ou indiretamente, causam um amplo e devastador impacto na biodiversidade do planeta.

A destruição da biodiversidade – ou seja, a perda das espécies existentes na Terra – não só causa um colapso nos ecossistemas e seus processos ecológicos, como é irreversível. Nem a mais alta tecnologia, nem as novas descobertas biotecnológicas ou a realidade virtual podem compensar o prejuízo inigualável da extinção das espécies; certamente nada poderá recuperar o que foi formado de forma tão singular, ao longo de bilhões de anos, na história evolutiva de nosso planeta.

As mudanças com maior potencial de alterar a infra-estrutura natural da Terra são aquelas causadas por experiências químicas que o homem tem imputado à atmosfera nos últimos 150 anos. O fato é que a evolução do ser humano e a história da humanidade no planeta descrevem uma trajetória de demanda crescente sobre os recursos naturais. Isso tem atrapalhado os eventos naturais de extinção e surgimento da biodiversidade.

No período que se seguiu a Revolução Industrial (1750), a atmosfera terrestre sofreu um aumento gradual, mas persistente, na concentração de gases oriundos de processos potencializados pela ação do homem. Em 1827 o cientista francês Jean-Baptiste Fourier foi o primeiro a considerar o “efeito estufa”, fenômeno em que os gases atmosféricos retêm a energia solar refletida pela superfície terrestre, elevando a temperatura terrestre, em vez de permitir que o calor volte para o espaço. Em 1896 o químico sueco Svante Arrhenius culpa a queima de combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão) pela produção de dióxido de carbono (CO2).

A partir daí, estudos e análises atmosféricas tem sido o carro chefe dos estudos de meio ambiente e das mudanças climáticas globais, tanto que em 1958, o cientista americano Charles D. Keeling passou a medir a elevação anual de CO2 atmosférico e relacionou-a com o aumento do uso dos combustíveis fósseis no pós-guerra.

//earthobservatory.nasa.gov)

Curva de Keeling: (a) mostrando o aumento anual da concentração de gás carbônico; (b) mostrando o aumento das médias de temperatura globais. (Modificado de http://earthobservatory.nasa.gov)

Foi então que em 1988 o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) foi criado sob os auspícios da ONU como referência científica da medição e análise do aquecimento global, publicações e atualizações regulares sobre o estado de conhecimento a respeito do tema.

Em seu primeiro relatório já em 1990, o IPCC mostrou que o nível dos Gases Efeito Estufa (GEE) produzidos pelo homem têm aumentado na atmosfera e previu que estes gases causarão o aquecimento global. Logo foi criada a Convenção Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança Climática (UNFCCC) durante a ECO-92 no Rio de Janeiro, e também pediu cortes voluntários nas emissões de GEE. Os países membros do UNFCCC assinaram em 1997 o Protocolo de Kyoto, que exige que os países industrializados reduzam as emissões de seis gases de efeito estufa em 5,2% para a meta 2008-2012, em comparação com os níveis de 1990.

Em 2001 o terceiro relatório do IPCC declarou ser incontestável a evidência de aquecimento global causado pelo homem, e antecipou que em 2100, a temperatura atmosférica global terá aumentado entre 1,4°C e 5,8°C.
No dia 2 de fevereiro de 2007, o IPCC publicou o primeiro volume de seu quarto relatório de avaliação, que aponta com 90% de certeza que o aquecimento global até agora observado foi causado pela ação humana.

Os principais pontos deste relatório foram:
– Até o fim deste século, a temperatura da Terra pode subir de 1,8ºC até 4ºC.
– O nível dos oceanos pode aumentar até 59 centímetros até 2.100.
– O gelo do Pólo Norte poderá ser completamente derretido por volta de 2100. O encolhimento das geleiras ameaçará o suprimento de água para, pelo menos, 50 milhões de pessoas.
– O aquecimento da Terra não será homogêneo e será mais sentido nos continentes do que no oceano.
– No Brasil, o aquecimento mais intenso ocorrerá no Centro-Oeste e no Norte, regiões que abrigam a Floresta Amazônica.
– Haverá morte de 80% dos recifes de coral. A Grande Barreira de Corais, na Austrália, irá desaparecer.
– As emissões passadas e futuras de CO2 continuarão contribuindo para o aquecimento global e a elevação do nível dos mares por mais de um milênio.
– A temperatura média no Ártico tem aumentado quase duas vezes mais do que a média global nos últimos 100 anos.
– A quantidade de chuvas aumentou no leste das Américas do Norte e do Sul, norte da Europa e centro e norte da Ásia.
– As secas estão mais fortes no Sahel (África), no Mediterrâneo, no sul da África e em algumas áreas do sul da Ásia.

Os pontos do globo em que a biodiversidade mais sofrerá com todas as alterações ambientais são os chamados hotspots. O conceito dos hotspots, criado em 1988 pelo Dr. Norman Myers, estabeleceu 10 áreas críticas para conservação em todo o mundo. Essa estratégia foi adotada pela Conservation International para estabelecer prioridades em seus programas de conservação. Estudos recentes, conduzidos com a contribuição de mais de 100 especialistas, ampliaram e atualizaram essa abordagem. Após quatro anos de análises, o grupo de cientistas estabeleceu os 25 hotspots atuais.
A escolha desses pontos críticos leva em consideração que a biodiversidade não está igualmente distribuída ao redor do planeta, sendo que cerca de 60% de todas as espécies de plantas e animais estão concentradas em apenas 1,4% da superfície terrestre. Essa abordagem prioriza as ações nas áreas mais ricas – como os Andes Tropicais, Madagascar, Indonésia, entre outros – protegendo espécies em extinção e mantendo o amplo espectro de vida no planeta.

O critério mais importante na determinação dos hotspots é a existência de espécies endêmicas, isto é, que são restritas a um ecossistema específico e, portanto, sofrem maiores risco de extinção.
As mudanças climáticas têm grande poder de destruição da biodiversidade. Eventos de extinção em massa ocorreram algumas vezes na história de nosso planeta, inclusive devido a alterações climáticas, mas nunca em escalas de tempo tão reduzidas quanto a que estamos prestes a presenciar. Talvez seja esse o principal problema que as formas de vida terão que enfrentar na tentativa de ultrapassar tal gargalo, para iniciar, quem sabe, um futuro ciclo de explosão da biodiversidade. O termo que deveria ter sido cunhado e colocado em prática há muito tempo é sustentabilidade, que é na pratica sinônimo de desenvolvimento, de um estágio superior na forma de enxergar o mundo e utilizá-lo sem prejudicá-lo.

Sugestões de leitura:

Wilson, E.O. (2003); The encyclopedia of life; TRENDS in Ecology and Evolution, 18 (2)

Houghton, J.T.; Ding, Y.; Griggs, D.J.; Noguer, M.; Van der – Linden, P.J.;  Xiaosu,  D.  (Eds.) (2001) Climate change 2001, the scientific basis; Cambridge University Press, Cambridge.

http://www.conservation.org

Filme: Uma verdade inconveniente, de Al Gore

Eduardo A. Dias de Oliveira e José Renato Legracie Jr., programa de pós-graduação em biologia comparada

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