Evolução: ciência viva


As populações de organismos mudam com o passar dos tempos, ou seja, evoluem! Tal exclamação poderia muito bem ser dispensada em troca de um ponto, levando-se em consideração nossa atual visão de mundo biológico. Entretanto, houve uma época em que essa mesma frase viria acompanhada de uma grande e obscura interrogação.


Foi apenas no século XVIII que naturalistas franceses, como Georges Louis Leclerc – conde de Buffon (1707-1788) e Jean-Baptiste Pierre Antoine de Monet – cavaleiro de Lamarck (1744-1829), revelaram a chamada transmutação das espécies (evolucionismo) e fundaram assim as bases pelas quais hoje a biologia se sustenta. Na verdade, a percepção de um universo dinâmico frente a um mundo imutável já havia ocorrido em outras áreas da ciência como a astronomia e a geologia.

A teoria nascente, em seguida, foi reestruturada pelos ingleses Charles Robert Darwin (1809-1882) e Alfred Russel Wallace (1823-1913), os quais reformularam conceitualmente o evolucionismo com as idéias de ancestralidade comum e seleção natural (descendência com modificação). Estas duas passagens, retiradas do livro de Darwin A origem das espécies, publicado em 1859, grande marco da ciência, nos revela uma compreensão mais clara dos pensamentos propostos:

“… a espécie primeiramente gerando duas ou três variedades, que por sua vez se transformarão lentamente em espécies, as quais, por sua vez, produzirão outras espécies, sempre de maneira lenta e gradual, à semelhança dos galhos de uma grande árvore, que se ramificam a partir do tronco.”

“… não como reações inatas ou criadas, mas como pequenas conseqüências de uma regra geral orientando o aprimoramento de todos os seres organizados, levando-os a se multiplicarem e variarem, e fazendo com que os mais fortes sobrevivam e os mais fracos venham a perecer.”
Estava formado o cerne da teoria da evolução. Desse eixo principal brotou uma nova fundação, que conciliou, de modo interdisciplinar, as concepções evolucionistas aos conhecimentos mendelianos dos mecanismos de herança, tendo como principais articuladores Ronald Aylmer Fisher (1890-1962) e John B. S. Haldane (1892-1964) na Inglaterra, e Sewall Wright (1889-1988) nos Estados Unidos. A esta junção inicial foram acrescentadas, posteriormente, contribuições da genética, da sistemática e da paleontologia, resultando numa verdadeira síntese multidisciplinar denominada neo-darwinismo, que revelou nomes como Theodosius Dobzhansky (1900-1975), Ernst Mayr (1904-2005) e George Gaylord Simpson (1902-1984), dentre outros formuladores e divulgadores.
Apesar da robustez, refinamento e elegância com que o pensamento evolucionista se consolidou, os últimos anos vêm sendo marcados por ataques ferrenhos sobre a validade da teoria da evolução biológica. Uma das vertentes mais duras para com esta teoria é a do chamado design inteligente, movimento iniciado nos Estados Unidos e com adeptos em vários países.
A teoria do design inteligente busca explicar algumas características complexas do universo natural através da ação de uma força sobrenatural direcionadora, colocando em xeque a hegemonia de processos naturais passíveis de compreensão à luz da ciência atual. Apesar de válida enquanto hipótese questionadora da teoria da evolução, com raras exceções vem acompanhada de argumentação unilateral e dogmática, criando-se um conflito aparentemente intransponível no debate com o evolucionismo. Uma teoria que permeia tantas áreas das ciências biológicas, duramente combatida e testada ao longo dos séculos, já reestruturada, mas nunca derrubada, precisa ser questionada com mais propriedade, seriedade e mesmo idoneidade.
Evolução por seleção natural é, antes de tudo, um fenômeno observável e passível de comprovação experimental. A afirmação de que não existem provas que suportem esta teoria consiste numa apelação ingênua, no sentido de ignorar inúmeras evidências como as geológicas (soerguimento de montanhas e surgimento de ilhas vulcânicas), paleontológicas (fósseis) e ontogenéticas (estudos comparativos de embriões). Negar o evolucionismo sem argumentação conveniente é, dessa forma, rejeitar o processo pelo qual a ciência é feita, bem como sua natureza conjectural.
Debates extremamente interessantes e enriquecedores, no entanto, têm sido gerados em investigações que buscam questionar, ampliar e complementar a teoria da evolução, e não substituí-la. Reflexões sobre a atuação da seleção natural nos diferentes níveis de organização biológica (molecular, orgânico, populacional) ou sobre sua influência na geração da biodiversidade (e não apenas na triagem da mesma), ou ainda estudos dos mecanismos pelos quais se originam as grandes linhagens evolutivas (macroevolução), têm contribuído muito no avanço do conhecimento sobre o mundo natural e sua lógica subjacente.
A evolução não é somente um conteúdo da biologia, mas o eixo organizador de toda esta ciência. Pode ser encarada como uma ferramenta que nos ajuda a dar sentido ao mundo natural, o óculos de quem lê e o lápis de quem escreve sobre a vida de modo geral.

Dessa maneira, a nossa exclamação inicial (que um dia foi interrogação), associada à mutabilidade das espécies, facilmente poderia ser restringida a um singelo e acomodado ponto. Reticências talvez fosse mais conveniente, por deixar suspensas as confirmações e contribuições que se seguiram à proposição inicial, aqui resumidamente citadas. Um ponto final, no entanto, seria uma inconseqüência no sentido epistemológico do avanço da ciência, e com certeza não é esse o caso do evolucionismo ou de qualquer outra teoria científica. Cabem nessa nossa história outros tantos pontos e novas interrogações.

Alexandre Favarin Somera, Felipe Chinaglia Montefeltro e Vitor Luís Masson, alunos de pós-graduação em biologia comparada; e Moysés Elias Neto e Túlio Marques Nunes, alunos de pós-graduação em entomologia

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