PEIC: de um ponto de mutação à diversidade cultural

Há cinco anos, um grupo de alunos do curso de biologia fundava o PEIC, Projeto Educacional Interdisciplinar Comunitário. Com uma proposta educacional diferenciada, o projeto destina-se a alunos de baixa renda que desejam se preparar para o vestibular ou complementar sua formação. O grupo idealizador contestava a fragmentação do conhecimento e buscava na iniciativa novos valores para a compreensão do saber. Nesse pouco tempo de existência, o cursinho popular da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCLRP) – como é mais comumente lembrado – orgulha-se por manter seus ideais e prepara-se para uma reforma pedagógica e administrativa em 2009.

“O PEIC nasceu no ano de 2003 como fruto do ímpeto sonhador, utópico e quase irresponsável de menos de meia dúzia de calouros da quadragésima turma de biologia da FFCLRP”, comenta Mauro Prato, biólogo e professor do PEIC desde a sua fundação. De fato, a idéia de se criar um programa educacional comunitário surgiu quando os amigos Cleiton Lopes Aguiar, Caio Margarido Moreira, Luís Fernando de Souza Pinto e Rafael Ruggiero passaram a refletir sobre novas maneiras de se compreender o conhecimento. Revoltados com a visão fragmentada de ciência que é passada nas escolas, os universitários sonhavam com um método de ensino capaz de compreender e transmitir o conhecimento em sua totalidade, primando pela integração do saber e a formação pessoal. “Eu e o Nazi [Luís Fernando Pinto] tínhamos assistido ao filme O ponto de mutação e começamos a discutir sobre como o ensino é fragmentado nas escolas e todas as coisas erradas. E veio a idéia da interdisciplinaridade”, lembra Aguiar. Com base em outras faculdades que ofereciam cursos pré-vestibular ministrados pelos próprios universitários e na experiência do pai de Moreira, que era professor em um cursinho popular de Ribeirão Preto, a idéia foi ganhando maturidade e atraiu os olhares de outros interessados: nascia o PEIC.

Inicialmente, os amigos envolvidos com o projeto formaram um núcleo de dez pessoas que se reunia semanalmente na cantina da FFCLRP para discussões. A princípio, o PEIC despontou com uma proposta ousada. A idéia inicial era deixar para trás a tradicional divisão do conhecimento e, ao invés disso, as disciplinas seriam apresentadas em três grandes áreas: ciências humanas, ciências naturais, e um terceiro bloco, chamado de “ferramentas”, que forneceria as bases necessárias para a compreensão das duas grandes áreas da ciência e seria composto por matemática, português e inglês. No entanto, pela falta de experiência didática do grupo, a idéia foi logo abandonada e o conhecimento foi organizado como nos cursinhos particulares mais famosos.

Apesar da divisão tradicional, o PEIC ainda prometia inovar com a proposta interdisciplinar, e o número de voluntários aumentava a cada reunião. Em pouco tempo, o projeto atraiu a participação de alunos da sala dos calouros, de seus veteranos, e ainda de alunos da Faculdade de Economia, Administração e Ciências Contábeis, que já ministravam aulas no cursinho popular mantido por tal unidade. Do núcleo inicial, foi montada uma comissão para cuidar de assuntos burocráticos, como a adoção do cursinho pela instituição e a aquisição de espaço físico para o seu funcionamento, etapa que contou com o apoio do então chefe de departamento do curso de biologia Evandro Camilo e do professor João Atílio Jorge, seu vice.

Quanto ao projeto pedagógico, as discussões sobre o conceito de interdisciplinaridade tiveram grande contribuição do professor do Departamento de Educação da FFCLRP Marcelo Tadeu Motokane. O professor colaborou de modo fundamental na estruturação do curso, inclusive no início de seu funcionamento, recepcionando os alunos com uma aula inaugural, de caráter motivacional, e ministrando palestras ao longo do ano letivo.

O permanente contato com membros do Centro de Apoio Popular Estudantil – CAPE-, o mais tradicional dos cursinhos populares da cidade, foi também imprescindível na concretização do PEIC, especificamente para seleção de sua primeira turma. Às vésperas do início do ano de 2004, a equipe do PEIC não tinha condições de preparar seu próprio processo seletivo para eleger aqueles que preencheriam as 40 primeiras vagas oferecidas. Foi quando o grupo ousou mais uma vez e decidiu fazer um acordo: os candidatos que não conseguissem ingressar no CAPE pelo esgotamento das vagas seriam automaticamente convocados pelo PEIC, na ordem de classificação. O projeto ainda disponibilizaria 10 vagas para os alunos que haviam estourado o seu prazo de participação no CAPE e, portanto, não poderiam participar novamente da seleção.

Foi assim que, em 2004, o cursinho da FFCLRP recebeu sua primeira turma registrando o maior número de professores voluntários dentre os cursinhos populares de Ribeirão Preto, na proporção de um professor para cada aluno. Essa questão que foi solucionada com a criação do “monitor assessor”, que auxilia alunos e professores dentro e fora da sala de aula. E os esforços dos diretores foram ainda muito além do esperado. Já em sua primeira turma, os futuros vestibulandos adquiriram o status de estudantes, podendo adquirir passe de ônibus e ingressos para cinema e eventos a metade do preço. Essa vitória se deu graças ao trabalho de uma das diretoras do projeto, Mariana Galera Soler, e da colaboração do NESA, Núcleo de Educação Sócio-Ambiental de Ribeirão Preto. Um de seus fundadores, Altamiro Xavier de Souza, abraçou a causa e concedeu a utilização de seu CNPJ pelo cursinho.

A partir de sua segunda turma, o PEIC contou com o seu próprio processo seletivo, composto por uma análise sócio-econômica, uma prova de conhecimentos gerais e uma redação. Aulas temáticas, palestras, debates, discussões sobre filmes, músicas, plantões aos sábados, simulados e até a promoção de uma semana cultural anual são algumas das ferramentas de que o PEIC se vale na tentativa de abordar o conhecimento científico de maneira integrada e preparar seus alunos para os vestibulares. E tudo isso se deve ao empenho das novas gerações de diretores e professores que tomaram o projeto como parte de seus ideais, quando grande maioria do núcleo fundador concluiu a graduação e se distanciou. “O PEIC só existe hoje porque os diretores Fábio Curi de Barros e Felipe Zampieri assumiram essa transição”, reflete Aguiar. E complementa: “Eu vejo que o PEIC vai continuar por conta dessa mentalidade que se criou”, referindo-se aos novos voluntários que aderem ao projeto ano a ano, enquanto as turmas que se formam tendem a deixar as aulas. Mais recentemente, alunos da Faculdade de Medicina do campus também passaram a integrar o quadro de professores do cursinho, e alunos do curso de pedagogia integram o conselho pedagógico.

Visando prioritariamente à formação crítica e criativa do cidadão, o projeto comemora o sucesso de seus alunos na continuidade de seus estudos. Das quatro turmas que compartilharam essa experiência, saíram aprovados em instituições públicas de renome como USP, Unesp, Unifesp, Ufscar e UFMG. Sem contar aqueles que, por bons resultados no Enem – Exame Nacional do Ensino Médio-, obtiveram bolsas de estudos integrais concedidas pelo ProUni, o Programa Universidade Para Todos, do Ministério da Educação, para cursarem universidades de Ribeirão Preto como Unaerp e Barão de Mauá.

E os resultados não se restringem aos alunos. Os professores e ex-professores do PEIC afirmam que o trabalho é uma ótima oportunidade para a prática educacional, a oratória e a organização do raciocínio do que aprendem na universidade. Entretanto, alegando a falta de tempo para a troca de vivências e debates, a atual comissão de voluntários declara que o curso passa por crises e deixa de cumprir seu papel em oferecer uma formação interdisciplinar. Um fato bastante tranqüilizador é que os alunos compreendem a dificuldade em se montar um curso interdisciplinar e reconhecem o empenho de seus professores. “Por exemplo, nas aulas de matemática, eles tentam fazer você pensar não apenas em matemática, mas em outros assuntos”, conta o aluno Wesley Guimarães, candidato a uma vaga em engenharia mecânica. “É uma limitação de todo cursinho, não só do PEIC. Mas ele dá conta do recado”, conclui Gleice Marques Pereira, aluna de graduação do curso de Ciência da Informação e Documentação, da FFCLRP, e ex-aluna do PEIC.

A atual diretoria espera para 2009 obter financiamento para a produção integral das apostilas que são preparadas pelos professores, cuja verba concedida pela seção administrativa da FFCLRP não cobre. Além dessa contribuição, o curso se mantém com a taxa cobrada no ato da inscrição do processo seletivo, de R$ 20,00, e com doações facultativas dos alunos, além de materiais didáticos cedidos por voluntários em geral. O PEIC também espera conseguir um espaço físico para organizar sua secretaria e sua biblioteca, que utilizam as dependências limitadas do Centro Estudantil da Biologia. A formação de um conselho pedagógico também é prevista, juntamente com alunos do curso de pedagogia, para que a prática interdisciplinar seja preponderante nas aulas e o curso retome seu fôlego.

Estima-se que mais de 150 alunos da FFCLRP já tenham participado direta ou indiretamente do projeto, dando sua contribuição e adquirindo uma formação notadamente diferenciada. A iniciativa se mostra tão envolvente que muitos alunos e ex-alunos do PEIC, ao ingressarem na universidade, se tornam ou pensam em se tornar professores de cursinhos populares. É o caso de Daniel Luiz de Melo, aluno da primeira turma do PEIC. Ele dá aulas em um cursinho popular há mais de um ano e interrompeu seus estudos em uma tarde de sábado para contar ao Fecunda sua experiência. Melo se forma matemático pela Ufscar no final deste ano.

Mais informações:

Secretaria do PEIC, com sede no Centro Estudantil da Biologia (CEB), todas as terças-feiras, das 19 às 21 horas, ou pelo telefone (16) 36024662.

Na internet, acesse: http://br.geocities.com/cursopeic/

cursopeic@yahoogrupos.com.br

Mais inspirações:

O ponto de mutação (1990), de Bernt Capra, filme baseado na obra homônima de Frijot Capra, 1982.

Sibila Carvalho, bióloga formada pela FFCLRP e aluna do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo Científico (Labjor), Unicamp

Uma resposta

  1. Em primeiro lugar gostaria de parabenizar toda a equipe pela iniciativa!
    Pelo o que li neste site o cursinho é anual e o próximo período de inscrição seria só em 2010, mas procuro por outros contatos de cursinhos como este.
    Se puderem me informar, ficaria grata. É para um familair meu.
    obrigada, Mariane

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